EducaJovem: na roda de capoeira, cultura, autonomia e convivência se encontram
Quando a cantiga da capoeira ecoa, a cultura ganha forma no gingado, nas vozes e nas histórias compartilhadas na roda. No Jardim Cristo Redentor, em Ribeirão Preto, essa vivência faz parte da rotina de 56 crianças e adolescentes atendidos pelo EducaJovem, projeto da Fundação Educandário que amplia o acesso à cultura e a atividades socioeducativas.
Nas aulas, aprender capoeira vai além de reproduzir movimentos. As crianças e os adolescentes observam, experimentam o gingado e os golpes e encontram espaço para participar da roda, seja jogando, cantando ou interagindo com o grupo. Segundo o contramestre e professor do projeto, Claudemir Henrique Modesto, conhecido como Kilo, esse processo estimula o protagonismo, a autonomia e a descoberta dos próprios limites.
O aprendizado também acontece fora dos movimentos. Durante as aulas, a música e as cantigas abrem espaço para conversar sobre a história da capoeira, a cultura negra e os significados presentes nessa manifestação cultural. As letras são exploradas com os participantes para que conheçam histórias transmitidas de geração em geração e reflitam sobre questões como o racismo e o respeito às diferenças.
Para Claudemir, a roda é um espaço de igualdade: “a circularidade é justamente para um poder olhar para o outro de igual para igual”. Os alunos mais experientes também podem ajudar quem está começando, fortalecendo a colaboração e o cuidado com o grupo. “A capoeira é comunitária, um ajuda o outro, um ensina o outro e um escuta o outro, isso faz parte dessa visão, dessa ancestralidade africana”.
Vínculos que continuam
Entre os alunos de capoeira do EducaJovem, 13 passaram pela Escola de Educação Infantil Dr. Fábio dos Santos Musa e deram continuidade à prática no projeto após a Educação Infantil. Dylan de Castro, 8 anos, e Eliel Oliveira Cabovito, 6 anos, fazem parte desse grupo. As trajetórias deles mostram como o vínculo com a capoeira pode atravessar diferentes etapas da infância e permanecer presente na vida das famílias.

Dylan começou a praticar capoeira ainda na escola e, depois de concluir a Educação Infantil, quis continuar no EducaJovem. Para a mãe dele, Aline de Castro, a prática trouxe mudanças que ela percebe no cotidiano. “Ele melhorou bastante a concentração, a paciência e até a comunicação com outras pessoas. Antes, ele era bem tímido”, conta.
A história de Eliel também revela o significado dessa continuidade. Quando ele começou a capoeira, a mãe dele Keila Jessica de Oliveira percebeu avanços na coordenação motora e na paciência. Quando Eliel finalizou a Etapa 2, a família sentiu a diferença e decidiu procurar novamente a atividade, dessa vez no EducaJovem. “Ele mudou da água para o vinho, não fala mais “não sou capaz”. Trabalha a independência dele”.

O acolhimento durante as aulas também faz diferença. Keila observa como os colegas incluem Eliel e o ajudam quando ele encontra alguma dificuldade. Ele demonstra entusiasmo pela capoeira: canta, toca instrumentos, participa da roda e costuma resumir a prática com uma palavra: “incrível”.
Em 3 de outubro, Dylan e Eliel conquistaram a primeira graduação na capoeira, durante uma cerimônia de troca de cordões que reuniu a turma de 2026. Para o professor Kilo, embora seja um momento simbólico, a conquista tem um significado importante para as crianças. Como ele explica, “representa a percepção de que são capazes de alcançar próprios objetivos: ‘Eu consigo, eu posso, eu faço as coisas acontecerem’”.